Dois executivos, um homem e uma mulher vistos de costas, observam um grande painel digital curvo. A tela exibe gráficos luminosos em tons de vermelho, um mapa-múndi e um ícone central de escudo com cadeado, ilustrando o monitoramento estratégico e corporativo da cibersegurança.

Imagem gerada digitalmente

Estratégia5 minutos

CISO Next: encontro reflete sobre cibersegurança como linguagem de negócio

Primeira edição reuniu executivos para discutir os principais desafios da cibersegurança, definindo os eixos que orientarão os próximos debates

Imagem gerada digitalmente

No primeiro encontro CISO Next, realizado pela MIT Technology Review Brasil, em parceria com a Claro empresas, o ponto de partida não foi a busca por respostas fechadas, mas a tentativa de qualificar melhor as perguntas. O debate mostrou um grupo atento à importância de testar, a partir da prática, onde estão, hoje, os atritos reais entre segurança, operação, regulação e estratégia. 

O encontro partiu de uma constatação relevante: a cibersegurança já não cabe na  moldura de barreira, custo ou área de contenção. Passa a operar como variável de  viabilidade do negócio. Isso altera o papel do CISO, amplia a pressão sobre lideranças técnicas e exige tradução contínua para a linguagem corporativa. 

A discussão local converge com um movimento mais amplo identificado pelo MIT  Internet Policy Research Initiative e pelo Federal Reserve, em um encontro que resultou no relatório Measuring Cyber Risk in the Financial Services Sector, de 2024, segundo o  qual o risco cibernético segue difícil de ser quantificado por falta de dados padronizados, o que limita decisões de gestão, definição de apetite a risco e  comparação entre pares. Em caráter complementar, o paper Mind the Gap, também do MIT, propõe justamente comparar postura de segurança com a de grupos equivalentes, para tornar o risco mensurável e acionável. Dessa base emergiram quatro eixos centrais, que veremos a seguir. 

Imagem gerada digitalmente

Eixo 1: Mensuração do risco 

Houve ceticismo em relação a estatísticas de mercado usadas como argumento de  autoridade, sobretudo quando descoladas de método, amostra e contexto  operacional. O recado é direto: sem métrica confiável, a cibersegurança perde  potência na mesa executiva e vira retórica. 

Esse diagnóstico reaparece no próprio encontro promovido pelo MIT com o Federal  Reserve, que reforça a necessidade de indicadores comuns para orientar governança, gestão e comunicação com conselhos e alta liderança. 

Eixo 2: Da proteção para a resiliência 

Os relatos indicam que a expectativa de prevenção total já não sustenta a realidade  operacional. Responder rápido, manter continuidade e pactuar responsabilidades  entre negócio, tecnologia e fornecedores tornou-se mais importante do que prometer invulnerabilidade. A maturidade em gestão de risco tende a estar associada à colaboração, à padronização e ao reconhecimento de que risco de terceiros, de quarta parte e de cadeia ampliada já compõem parcela crescente da exposição total. No Global Cybersecurity Outlook 2025, por exemplo, o Fórum Econômico Mundial informa que 54% das grandes organizações apontam a cadeia de suprimentos como principal  barreira à resiliência cibernética. 

Eixo 3: Regulação 

No encontro, a percepção foi a de um ambiente mais denso, com mais camadas de  exigência, mas nem sempre claro o suficiente. A tensão não está em regular ou não  regular, mas em como harmonizar obrigações sem deslocar recursos demais para conformidade e de menos para defesa real. 

O relatório do Fórum Econômico Mundial ajuda a dimensionar esse ponto: mais de  76% dos CISOs ouvidos afirmam que a fragmentação regulatória entre jurisdições  afeta significativamente a capacidade de manter a conformidade. No debate do CISO Next, isso apareceu de forma concreta, quando executivos apontaram a dificuldade de inovar, testar e modernizar com o “avião no ar”. 

Eixo 4: Inteligência Artificial 

A conversa começou sobre Shadow AI, mas avançou para um problema maior: a  entrada acelerada de modelos, automações e promessas de produtividade sem lastro proporcional em governança, dados, responsabilidade e validação. 

Esse diagnóstico encontra eco em duas referências recentes. A primeira é o AI Risk Repository, do MIT, que hoje consolida mais de 1.700 riscos extraídos de 74  frameworks, e organiza o tema em sete domínios; entre eles privacidade e segurança, desinformação, uso malicioso e falhas de governança. 

A segunda é o Cost of a Data Breach Report 2024, da IBM com o Ponemon Institute,  estudo segundo o qual o custo médio global de uma violação chegou a US$ 4,88  milhões, 10% acima de 2023, enquanto o uso de IA e automação em prevenção reduziu em média US$ 2,2 milhões por incidente entre as organizações pesquisadas. 

O mesmo estudo ressalta que dados espalhados por múltiplos ambientes, inclusive cargas associadas a IA, tornam identificação e contenção mais lentas e caras. Em outras palavras, a automação pode gerar eficiência, mas, sem governança, também amplia a superfície de incerteza. 

Próximos passos 

A devolutiva desse primeiro CISO Next é objetiva. O grupo não pediu mais discurso  sobre tendência. Pediu melhor formulação de risco, melhor comunicação com  stakeholders e um reposicionamento da segurança como disciplina de negócio.

A agenda que sai do encontro, portanto, não é a de evangelização tecnológica. É a de construir métricas mais úteis, reportes mais inteligíveis, governança mais clara para Inteligência Artificial e colaboração mais madura entre empresas, reguladores e ecossistema. Para além da principal entrega do encontro, passa a ser também o seu critério de continuidade.